sexta-feira, 14 de setembro de 2012


RESENHA
Israel B. Alves
STOTT, John. O discípulo radical, Editora Ultimato, Viçosa, MG, 2011.
O prefácio do livro é a explicação do próprio Stott para a escolha do título de seu livro. Nele, os leitores são relembrados que os primeiros seguidores de Cristo eram chamados “discípulos” e que o termo em si é mais significativo que o termo cristão, pois o primeiro traz consigo a ideia da existência de um relacionamento entre aluno e professor (p. 10). Stott então argumenta que o discipulado cristão possui um caráter radical, que exige de cada discípulo um retorno às suas raízes ou, em outras palavras, aos compromissos fundamentais com o mestre. Logo, o objetivo de Stott é conduzir os cristãos a uma reflexão sobre a necessidade de submeter-se radicalmente à autoridade de Cristo e para isso ele aborda oito características do discipulado cristão que considera frequentemente negligenciada em nossos dias (p. 11).
Primeiramente, ele trata do inconformismo. Para Stott “a igreja tem uma dupla responsabilidade em relação ao mundo ao seu redor” (p. 13). Tal responsabilidade é de servir e testemunhar de Cristo e ao mesmo tempo não contaminar-se com o mundo. Portanto, os discípulos de Jesus são chamados a “desenvolver uma contracultura cristã” (p. 14). E, a partir desta contracultura, resistir às tendências contemporâneas que são os grandes desafios para a radicalidade do discipulado cristão: o pluralismo, o materialismo, o relativismo ético e o narcisismo (p. 14-20).
No capítulo seguinte, Stott fala sobre a necessidade de o discípulo de Cristo tornar-se semelhante ao seu Mestre (p. 23). Stott explica que o enchimento com o Espírito Santo é a forma pela qual Deus faz os cristãos se tornarem como Cristo (p. 31).
A terceira característica do discipulado cristão abordada por Stott é a maturidade (p. 33). Stott se propõe a tratar da questão da maturidade a partir de três questões básicas: “o que é maturidade cristã” (p. 35-36), “como os cristãos se tornam maduros” (p. 36-39) e “para quem esse chamado à maturidade é direcionado” (p. 36-41). Ele encerra esse capítulo com uma breve súplica, pedindo de Deus “uma visão completa e clara de Jesus Cristo” (p. 41).
O quarto capítulo revela uma preocupação extremamente contemporânea de Stott: “o cuidado com o meio ambiente” (v. 43). O capítulo aponta o relacionamento de “cooperação com Deus” como o correto posicionamento dos discípulos diante da questão ecológica, desviando-se dos extremos possíveis (p. 45,46).
O quinto capítulo, particularmente, considero uma aplicação prática do anterior, pois a simplicidade de vida implica no uso correto dos bens e do dinheiro, e consequentemente tem implicações para o consumo (p. 56-70). O interesse de Stott é que os discípulos reflitam sobre sua responsabilidade com os seus atos de consumo e suas implicações sociais e mundiais.
O sexto capítulo é uma reflexão apropriada sobre quem os discípulos são à luz das Escrituras. Neste capítulo somos guiados por Stott através de 1 Pedro 2.1-17 para lembrarmos que somos: bebês (p. 73-75), pedras (p. 75-77), sacerdotes (p. 77-79), povo de Deus (p. 79-80), estrangeiros (p. 81) e servos (p. 81-82). Diante dessa perspectiva, os leitores são chamados a refletir sobre o chamado de Deus: para o discipulado individual e para a comunhão corporativa (p. 83), para a adoração e para o trabalho (p. 84), para a peregrinação e para a cidadania (p. 84).
No penúltimo capítulo, Stott aborda a característica da dependência. A conclusão do capítulo é o reconhecimento de que o discípulo não perde sua dignidade ao depender de outras pessoas e evoca o exemplo do Deus encarnado como modelo para a nossa atitude de vida (p. 94).
Finalmente, Stott fala sobre a morte. Ele reconhece que a “vida por meio da morte é um dos mais profundos paradoxos da fé e da vida cristã” (p. 95). Por isso, ele convoca os discípulos radicais a terem uma visão correta acerca da morte como a entrada para a vida (p. 96). Stott lembra que a Bíblia trata os cristãos como “ressurretos dentre os mortos” (p. 96); logo, o paradoxo vida e morte produz implicações revolucionárias em seis situações da vida cristã: na salvação (p. 97-98), no discipulado (p. 98-100), na missão (p. 100-104), na perseguição (p. 104-106), no martírio (p. 106-107) e na mortalidade (p. 107-111). Stott encerra esse capítulo lembrando que os cristãos são como “aqueles que estão vivos de entre os mortos” (p. 112).
Stott conclui seu trabalho reconhecendo que não foi exaustivo e que existem outras características que precisam de uma reflexão madura dos discípulos. Ele encerra, dizendo: “O fundamental em todo o discipulado é a decisão de não somente tratar Jesus com títulos honrosos, mas seguir seu ensino e obedecer aos seus mandamentos” (p. 113).
O livro em questão é uma daquelas obras que estão destinadas a se tornarem clássicos e, portanto, uma leitura obrigatória para os cristãos em geral. Algumas características do livro precisam ser destacadas:
v  A primeira é a sua leitura agradável e sua linguagem simples, que revela o coração de um pastor preocupado com a presente geração de cristãos que necessita urgentemente refletir sobre a radicalidade da fé e do discipulado de Jesus Cristo.
v  A segunda característica é a profundidade bíblico-teológica com que Stott aborda a temática do discipulado, o que oferece uma fundamentação sólida para os leitores.
v  A terceira é a dinâmica do texto que, apesar da profundidade bíblica e teológica, é extremamente prático e exige uma resposta imediata do leitor.
v  E, por fim, Stott foge da fórmula usada por autores da área de vida cristã e discipulado, que apresentam este tema numa perspectiva intimista, meramente contemplativa e dissociada de práticas mais concretas.
A obra convida ao retorno a uma piedade ativa e proativa. O discípulo radical é chamado para o serviço a Deus, às pessoas e ao mundo, numa vida de imitação de Cristo, de maneira madura e equilibrada.


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